Blog da Cosac Naify | História de pescador

Como o blog da Cosac foi desativado, resolvi postar aqui alguns dos textos que escrevi para lá. O texto que se segue é o “História de pescador”, não me recordo a data de publicação original.

Euforia, apatia e um leve pânico.

Essa sequência de palavras define com exatidão matemática como me senti quandoMoby Dick foi citado numa reunião na qual se discutiam os próximos títulos a serem lançados em e-book pela editora.

Imediatamente fui transpassado por essas sensações, afinal, trabalhar neste tipo de livro significa, para mim,  lidar com uma série   de pesos e de tensões emocionais que ignoro, ao longo do dia, serem parte indissociável de quem sou hoje. Adaptar nossa edição de Moby Dick para o digital representava encarar uma série de sensações, memórias enevoadas e, também, medos infantis.

Meu pai, segundo da esq. pra dir., minha mãe, quarta, da esq. para dir. Não sei quem são os demais.
Meu pai, segundo da esq. pra dir., minha mãe, quarta, da esq. para dir. Não sei quem são os demais.

Passei parte da minha   primeira infância dentro de um barco de pesca: a traineira azul e branca de papai. Lembro do frio da madrugada próximo às ilhas Maricás, a um quilômetro da costa de Ponta Negra (RJ), e de tentar dormir em uma das beliches, dispostas imediatamente sobre o motor, que aquecia o ambiente.

Lembro também da pequena embarcação sendo açoitada pela chuva, característica dos temporais de janeiro, e do enjoo causado pelas ondas fortes da estação e da lua. Do cheiro de diesel queimando, do vozerio dos adultos acordados, bebendo e cantando esperando a hora de recolher a rede alta e a curvineira. E ainda posso sentir   meu senso de urgência em pular do barco assim que o tempo esquentava e, em decorrência desse impulso, do desespero de papai em nadar atrás de mim a fim de me trazer de volta para o barco – afinal, eu não devia ter mais que cinco anos e tudo era imenso, mesmo levando em conta o fato de nossa pesca ser mais modesta do que a de Ahab.

Esse quadro, no entanto, é composto puramente por sensações, e estas não podem ser transferidas para uma moldura. Poucas são as imagens que se mantiveram em minha memória, ainda que de maneira turva: o porão pesado, carregado com uma tonelada de peixes (olhos-de-boi, curvinas, anchovas e tainhas), a aproximação do mercado de peixe São Pedro a uns 30 metros da proa, às quatro da manhã, e o jacaré que lá vivia, aprisionado em uma espécie de aquário improvisado: um cercado de azulejos brancos de mais ou menos 1 metro de altura, dentro do qual o animal, – que não devia chegar a um metro -, resistia exposto, semissubmerso por um palmo d’água.

Por conta desse amontoado de lembranças, a adaptação dessa bela edição impressa para um e-book me causou todo esse peculiar desconforto de quem há muito não retorna ao mar e sente aquela fraqueza nas pernas enquanto tenta se equilibrar no convés.

A baleia

Moby Dick é um livro grande e robusto, por dentro e por fora. Sua identidade visual é tão forte que me sinto desajeitado segurando-o.

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Ele aparenta ter mesmo o peso de uma baleia e, por isso, o mantenho na estante, por trás de um vidro, como que em um aquário. Ele é, para mim, o tipo de livro para ser lido em casa, em segurança, e não para ser carregado para cima e para baixo ao longo do dia. Afinal, seria no mínimo curioso observar um sujeito, na linha azul do metrô, com uma baleia entre as mãos…

Não imaginei que adaptaríamos esse título para o digital, que tentaríamos aprisionar o mar e o monstro em um quadro modestamente medido em pixels.

Conceitualmente, o livro não é menos sinuoso do que minhas impressões particulares sobre ele, e a busca por um resultado que expressasse algo próximo do que a edição impressa traz como experiência não racionalizável (com sua distribuição de capítulos, títulos, cores e proporções) se tornou mais um peso a ser medido.

O horizonte

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“O que você vê aqui?” “Me passa uma ideia de horizonte…”

Como transpor essa sensação de horizonte para o digital, que não conta com folhas duplas?

Em situações como essa, não creio que valha a pena encarar como necessidade uma transposição, da mesma forma como não haveria como transpor a sensação visual de ondulação na distribuição dos títulos. Forçar algo assim é como comparar o que se vê, olhando na mesma direção sob perspectivas diferentes. Como comparar a imagem que se tem a partir de um convés com o que se vê por trás de uma escotilha.

 

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Como se pode observar na imagem acima, os títulos dos capítulos distribuem-se de forma irregular, à esquerda e à direita. No digital, em telas menores, essa distribuição é inviável e o efeito, para a leitura, incômodo e confuso, em especial nos títulos à direita. Por conta de o alinhamento do texto ser oposto,   a deformação da estrutura seria gritante.

Com isso em mente, optei por dispor os títulos de maneira quase uniforme, como capitulares, à esquerda. Assim foi possível manter alguma coerência com o projeto original (ainda que precisando abrir mão da impressão ondulante, marcante no impresso) e evitar a possível bagunça em telas menores.

Em todo caso, essa saída não contempla todos os capítulos por conta da extensão de certos títulos (como no “56    DAS REPRESENTAÇÕES MENOS ERRÔNEAS DE BALEIAS E REPRESENTAÇÕES GENUÍNAS DE CENAS DA PESCA BALEEIRA”). Para estes, depois de testar uma série de adaptações possíveis, o melhor, para manter algum controle sobre a exibição, foi uma declaração simples, destacando os títulos do texto corrido.

 

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As páginas iniciais (rosto, sumário) da edição impressa foram originalmente compostas em duplas. O que caracteriza um problema na composição de sentido em ume-book,   que conta apenas com uma página (tela).

No caso da folha de rosto, pude optar por uma solução lógica: sobrepô-las, aproveitando as imagens que não seriam usadas, uma vez que optamos (ver post sobre e-books) por não reproduzir índices do impresso em nossos livros digitais. O resultado comparado pode ser observado abaixo:

 

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Todavia, o sumário impresso é encabeçado por um mapa que dialoga diretamente com seu conteúdo. Ele (o mapa) traça a rota do Pequod em sua busca por Moby Dick e sinaliza com uma observação acerca dos títulos de capítulos que correspondem aos lugares e situações atravessados pela embarcação.

Se fosse uma imagem comum, não haveria problema em descartá-la ou, simplesmente, deslocá-la para algum ponto do miolo que lhe atribuísse sentido. Porém, sendo um mapa mundi, acaba se apresentando a necessidade de uma adaptação, tanto pelas dimensões quanto pela quantidade de informação. Sem esse cuidado, o conteúdo do mapa se tornaria ilegível em telas menores.

A melhor opção para remediar essa limitação foi marcar o mapa, dividindo-o em duas partes (A e B).

Assim temos, em sequência, (1) uma miniatura do mapa completo, sinalizado por A e B em suas extremidades e sua legenda explicando o conteúdo; (2) nas duas páginas seguintes, sua primeira e segunda metade, ambas configuradas para serem exibidas em tela cheia, com os textos aumentados (na edição) e suas imagens rotacionadas verticalmente a fim de maximizar o espaço da tela.

 

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Outras imagens do livro também foram modificadas mas sem grande impacto (ajuste de contraste, redistribuição de legendas etc.)

Por fim, a última das adaptações distintivas entre as edições refere-se às páginas com fundo verde.

Apesar de se tratar de um recurso simples (background-color), alguns aplicativos não interpretam fundo colorido de maneira satisfatória (além de   variarem muito, de um para outro, quando é feita a inversão de cores para modo noturno). Optei por inverter a cor do texto pela cor do fundo, passando o verde para branco e vice-versa. Foi preciso ainda escurecer o tom do verde para melhor exibição e contraste em telas monocromáticas.

Os resultados dessas alterações foram distintos para os dois tipos de tela, embora, em ambos os casos,   tenham mantido coerência com o projeto original.

Se por um lado, em telas retroiluminadas, o tom de verde causa um efeito de limo, por outro, nas telas monocromáticas, causa uma sensação de névoa ou intangibilidade.

 

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Evidências fósseis apontam que um cachalote, à época de Melville, podia chegar a quase 30 metros e pesar algo em torno 150 toneladas. De início, erroneamente acreditei que meu trabalho consistia em aprisionar uma criatura desse porte (e, com ela, o mar, suas intempéries, o Pequod , a motivação febril de seu capitão e o temor de seus homens) dentro de um aparelho de menos de 500 gramas.

Não se tratava disso… Esta edição digital de Moby Dick, nesse aspecto, acabou por tornar-se o que poderia ser desde o início: mais uma marcação no mapa de seu trajeto migratório.

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